ERRANTE POETA


 Autor: Agnaldo Tavares Gomes



APRESENTAÇÃO

Componho este livro com os poemas que escrevi em tempo de descoberta do meu valor como poeta, da minha identidade de escrita.
Todos nós passamos por momentos mais revoltosos com as mais diversas situações da vida.
Esta dramaticidade encontrada em meus versos é transição de uma fase apenas, e não um estado de espírito constante ao meu ser.
Beberei neste livro com Byron, Castro Alves, Álvares de Azevedo, e tantos outros poetas o licor do romantismo, na taça que a vida nos oferece...         

(Ano 2007)



                                                     DEDICATÓRIA

                                                     Ao romantismo.



ERRANTE POETA

Sempre errante – este poeta
Perdido albatroz à busca fatigante
Do seio perfumado, caloroso
Onde faça o ninho – eterno pouso.

Bate as asas, águia do oceano!
Beija a fronte das vagas agitadas...
Das naus as velas hasteadas
Quais partem velozes das lusíadas...

No peito de ti, errante moço
Suspira um coração poeta
Amores idos aos oceanos
Naufragados nos desencantos...

Como pragas aos marinheiros troianos
Cúmplices ao furto de Helena – a rainha
Assim os poetas condoreiros – pela vida
Condenados a viverem sem rumo...

Que mal fizestes? – perguntas
A sofrer paixões devaneias
Fizestes tua cova – errante poeta
Sob as lindas madeixas de Julieta.



A CURVA RETA DO ARCO-ÍRIS

Assoprar em direção ao vento afoito
Qual um louco na sua loucura convencida...
Eu que nunca soube fazer estrelas
Também jamais soube escrever na vida...

O poeta é torto, imperfeito, qualquer
Que nunca aprendera o caminho certo
Por sobre a curva reta do arco-íris.
Maestro do cômico concerto!...

Acredita ser rei de um castelo abstrato...
Se possui algo na vida... possui versos
Seu rebanho confuso no pensamento...
Ilusão sem noção de tempo e espaço...

Como qualquer tolo é o homem sonhador
Sonha a dor em perder o tato da sombra...
Samba sobre os calcanhares sabendo que
O samba passa, e a sombra também, nada sobra...



AMORES EFÊMEROS

Amores outros!... Assim conjugo
Meus eternos amores efêmeros...
Amores que amei enlouquecido
Dei minha alma infeliz ao jugo...

Desesperado em braços solitários
Qual prisioneiro ao vaidoso ego
Tresnoito assim: embuçado pela luz
Esboçando risos no teto...

Flores de Van Gogh!... Invejo tuas cores...
A lira que rabiscastes teus amores
Invejo-te Don Juan condoreiro
Poeta dos escravos!... Errante moço...

Há cores sobre nuvens incolores...
Um desenho abstrato de Da Vinci
Um verso de Neruda nos Andes...
Um jovem poeta envelhecido a sós... consigo.

Queria meus amores fossem flores
Sem os espinhos a perfurar na alma...
Flores envaidecidas de beleza... Porém calmas,
Sem o desprezo das Musas orgulhosas...

Fanático desprezo que tange ao nada...
Quantas morreram como tu, Ofélia!
Quantas envaidecidas, desvairadas
Trocastes o amor por migalhas?...

Amores efêmeros... Jamais os tive!
Eternos nunca foram... – engano –
Flores despetaladas ao vento frio
Espinhos cravados no meu peito...



PALHAÇO TRISTE

Tenho vivido qual palhaço em cena... – triste fora dela –
Demonstro a alegria que não tenho
Invento um riso, reinvento outro
E vou assim neste meu velho engenho...

E é só estar comigo, à sós – eu e mim –
Para que em minha face dissolva logo
Toda tinta colorida... As quais
Compõem traços de pura alegria...

Não me acho disfarçado... Aparento ser
Perante o público que se contraem de risos,
Pois é a única felicidade devera
Que esta vida, frustrante, proporciona-me...

Já não sou agora o palhaço de outrora
Quando em cena mostrava a alegria
Capaz de encher todo o circo...
Sou todo tristeza... desanimo... melancolia...

Afaste-te de mim, alma linda! Não te aproximes
Teu lindo rostinho ao meu, tão triste
Não quero em tua face este borrão!
Clarão de um astro estremecido...

Bem fazer distante do palhaço triste...
Deixe-me comigo, vais contigo...
Bem melhor o palhaço de outrora – feliz –
Que este de agora – diante ao espelho – entristecido



A MAIS DURA CIÊNCIA

A realidade me bate a face e eu procuro
Por tua sombra nalguma rua...
Encontro-me comigo, no mais triste escuro...
Estrelas irônicas!... – me ri a lua... –

Gasto os sapatos na minha eloqüência
Persisto... persisto... não me canso!
Qualquer dia desses numa rua te alcanço
E tu me dirás a mais dura ciência...

Ah, se eu fosse o cocheiro destes cavalos
Que vivem em meu peito a galopar!...
Se eu pudesse ao menos quietar
O doido bramir no frenético estalo!...

Se ao menos tivesse assas de opala
Voaria pra longe... bem longe!...
Tornando-me o mais silencioso monge...

Mas não; inda sou profano!



AMOR É ETERNO

Prometo-te amor eterno... – sem exagero –
Aproximando-me a loucura dos loucos lúcidos...
Refugiando a extravagância dos poetas gregos

Prometo-te amor eterno... Não eterno
Quanto às paredes que na velhice
Transformam-se ruínas do amanhã...

Prometo-te amor eterno – mesmo sendo finito –
Um amor não falso-amor... – verdadeiro –
Pois todo amor é eterno enquanto amor.



DE PEITO EM PEITO

Que noite fria me traz a brisa!... – cruel desespero –
Que açoite o vento me bate à face!... – que desprezo –
Melancolia canta os ruídos dos amores idos!...

Quantas Musas na vida amei... Quanta devoção!...
Que santas barrocas!... Loucas indecisas...
Belas atrizes!... Mulheres disfarçadas...

Bem dizes tu, irmão poeta,
Com tua Voz roca, já cansada...
Pra eu me conter no peito este pássaro dourado!...

Se ao menos te houvesse escutado
Menos dolorido meu martírio diário...
Menos sangrentas minhas noites às claras...

Se mesmo os amores desprezastes
Minha calma mão correr tua alma
Fizestes por medo... Espanto
A tanto amor doado...

Fui poeta, um dia, a uma Musa sem lar
Que não se cansa de fingir seu amor...
Musa sem paradeiro certo
Que vive de peito em peito
Qual espectro no deserto...



SUPLÍCIO

A cada amor no peito naufragado um peso...
Sinto-me mais fraco... Porém mais forte!
Não sei se falsa interpretação da alma...

Sinto-me solitário a cada frustração
De pensar encontrado o diamante perdido
Em meio à caverna esquecida no deserto...

Minha mocidade por entre os dedos me foge...
Meu rosto mais velho em cada espelho...
Meus passos cansados de amores vans...

Será que outra Musa virá amanhã?...
E vais embalar meus sonhos por longas noites
Livrar meu corpo adoecido do sono da morte...

Onde estás, alma adorada?...
Porque não escutas meu doido chamado?...
Sentis prazer em ver-me padecer em braços devaneios...?

Quero acordar deste suplício atroz!...
Ver a luz do crepúsculo... a alvorada!
Ser livre... Livre qual no oceano alegre albatroz...



NO MEU CRÂNIO

Meus olhos já não são os mesmos...
São outros olhos – mais tristes –
A moça que me tiraste das cinzas
Agora me atira as trevas do abismo...

Seu sorriso brinda minha morte
Bebe no meu crânio o vinho quente...
E eu, sempre errante, me resta a sorte:
Estar vivo, embora, aparentemente...

Mas, outras aves virão!... – acredito –
E quem sabe este moço triste
De sorriso vago e olhar distante
Terá na face um sorriso em riste...

Outra moça então; ressurgirá sorrindo
Qual um anjo a me erguer do abismo...
Outra moça atenta a minha dor
Que brinde à vida e não minha morte...



ESTRANHA FIGURA

Roubastes-me os versos por um instante...
Silenciou minha fala... minha alma arrebataste...
Levando-me a desconhecidos mares...

E eu paralisado como estátua de Aquiles
A olhar a Grécia do alto do Olimpio
Olhei-a silenciado... misticamente...

Estremeceste minha humana criatura...
Erguendo-me das cinzas o gênio poema!
Meu Deus!... De onde me veio estranha figura?!

Deus!... Onde avistei olhar semelhante?!
Que oceano borbulhou estes diamantes?...
Trazendo-me ao peito suspiros divinais...

Eu, poeta, homem, às vezes menino...
A contemplar serenamente místico
Na quietude do Himalaia dois preciosos cristais...



A MULHER QUE VOS FALO
“És a glória talvez! Talvez a morte!...”

Seus sorrisos quando não meus
São lanças que me perfura o peito
São como cicatrizes deixadas na alma...

Sei; grande amigo! Errante moço
Que sofres do mesmo germe no peito
Ainda sou profano!... Nem místico sou...

Esta mulher que vos falo, amei-a
No mais íntimo do meu ser humano...
Amei-a na mais sutil maneira que um amante
Pudesse amar sua amada...

Agora sofro a pena... Sou culpado!
Fui eu que busquei aos olhos este aspecto
Tão mortal como os olhos de Hamlet...

Mas tenho comigo as sobras humanas
Ainda estou vivo! E é o que importa...
Como lhes disse, caro amigo:
Prefiro a vida que a morte!...

Morri o sonetista por amor
Adormeci o cômico ator
Mas o poeta, ainda, continua...



AMOR DO PASSADO

Mais à frente... No outro ponto
Estarei pronto para outro amor...

E tu, velho amor, serás tão somente
Recordações do meu passado...

Teu sorriso hoje colorido... Amanhã
Como em velhas fotografias amareladas...

Oh, grande amor do passado!...
Deixastes o poeta à deriva
A vadear os olhos nas vagas sonolentas...

Tu sabes que as águas passam
E com elas vãos os tormentos
E um dia tu serás apenas
Um invento...



ESPECTRO DA NOITE

Qual espectro arrastado pela noite
Horrendo... Angustiado... Buscando alívio
No leito frio de alheia cova...

Quanto me faz penar um seio quente!...
Um lábio ardente a murmurar um canto
Ao triste coração... “colibri dourado”

Onde está tuas sombras, agradável amiga?
Enlouquecida Ofélia as mãos de Hamlet
Quem te consola o peito... Enxuga-te as lágrimas?...

Oh, tua imagem é como as vagas do mar
Vem bramir... Beijar a nau
Onde minha alma sem rumo põe-se a vagar...



ENQUANTO HÁ TEMPO

Melhor rasgar poemas que guardá-los
Assim prefiro... São frustrações da alma
De um jovem que pensou ser calma
As velas sobre as vagas no estalo...

Melhor sair de cena enquanto há tempo
Nunca fui senão um mau ator
Nesta arte de amar sem pudor
Entregar o coração ao sentimento...

Melhor que ser poeta é ser criança
Não dá pra levar a vida naturalmente...
Fingir que as coisas são como antigamente
A casa sempre a mesma na rua da infância...

Melhor correr pra longe que estar perto
Mesmo que as lembranças persigam...
Pior ver dois olhos sem que nada digam
Dois olhos fingidos que nada sente...

Melhor perder a causa que perder a guerra

Este meu van versejar –triste – agora encerra...



ESTRANHO PARADIGMA

Sem mais palavras apanho minhas coisas e vou...
Vou pela vida como um peregrino pela sorte...
Cheio de saudades e lembranças vou...

Vôo como um pássaro a outras pátrias...
Sem repouso certo, desertado de tudo
Em busca de um ninho perfumado
No seio precioso de uma louca!...

Quem virá comigo a esta vida efêmera?
Sem medo de perder... – Pro que der e viver –
Só mesmo uma louca seguirá a um poeta!...

Mas a vida é mesmo assim: estranho paradigma!

Vou ao meu vôo de condor... Às altas montanhas
Em derredor da sorte que me procura...
Quem sabe numa rua me encontre risonha
Uma louca que queira viver a mesma loucura...

Vou sabido que a felicidade me espera
Num olhar qualquer de uma mulher – louca –
Sem mais mistério que dois olhos simples...



NOVOS VERSOS

Sem mais lágrimas que tu soubesses...
Não quero que veja meu olhar assim
Como se na fonte do tormento mergulhasse...

Meu rosto é calmo, é como o Everest...

Se tiveres de alcançar dois mirantes
Por detrás de uma colina nalgum ponto
Não serão meus olhos a olhar-te; não
Com aquela expressão intranqüila...

Serão outros olhos... E não os meus...

Ai, não me contive!... E esta noite
Deixei no papal novos versos...
Lágrimas naufragaram meus óculos...

Tudo baço... Tudo estranho...
Um silêncio em redor, tamanho!



TEMO POR TI

Compreendo... Teus olhos nunca serão
As pérolas encantadas que tanto busco
Serão apenas pedras comuns... – nada mais –

Temo por ti, ser tarde... E muito tarde
Se por ventura descobrires que são meus olhos
Teu amparo doce... teu exílio... último cais...

Enquanto não, estou por aí... Ainda o mesmo
Aquele peregrino moço suspirando versos
Falando a sós... interrogando... caducando...

O borbulhar de outros diamantes vejo!...
Novos versos suspiram meu peito...
Minha alma às cinzas ressurge ao versejo...

Mais uma vez, temo por ti... querida.
Sei ser forte na frustração diária... – acredito ser –
Não te quero uma lágrima tecer teu rosto lindo...

Então, queria que fosses a alma a se enlaçar a minha!...
Se não, como lhes disse: deixo-te por amor
E sigo a rua deserta...



NAUFRAGAR

Não te peço mais que o olhar calmo
Assim deixado no meu olhar nítido...
Não te obrigo a soluçar-se de gemidos
Pois, ir embora não quero, devo.

Não te peço que chores comigo
Se chorares, é porque não me amas
Como deverias amar a teu poeta: obediente
“como um monge calmo a Cristo”.

Não te quero impor um riso no lábio triste
Se o fizer, não serei teu herói – serei vilão –
Nesta louca vida, sem nome e endereço
Apenas um desejo enorme de ser feliz...

Não te trago espelhos para admirar-se tua beleza
Não, não és tão linda quanto às deusas gregas
És mais linda!... E linda quanto a ti mesma
Pois não há outra alma que completa a minha...

Não te peço qualquer coisa senão
Conter-se quando teus olhos buliçosos
Quiserem acompanhar-me além
Do naufragar de minha alma em mares ignotos...



QUALQUER COISA PRA NÃO PERDER-TE

Como é sacrificante olhar-te sorrir
Sem que eu possa tomar-te os lábios
Num beijo amoroso, demorado...
Eclipsar teu sorriso assim: tão lindo.

Mas devo-me conter, desesperadamente...
E contenho-me como um místico.
Ora penso partir... Ora penso ficar...
Vivo este martírio de amar!...

Ah, boa amiga, gentil menina!
Pra não perder-te faço qualquer coisa
Até mesmo ocultar as verdades
Deste amor que lhe sinto...

Entrego-me a guilhotina sem heroísmo
Suicido-me lentamente como um louco
Nesta maneira terrível
De amar-te ocultamente...

Até quando hei de viver este dilema?
Diz-me poeta amigo, irmão no poema...
Tu que amas também!

Qual melhor caminho: partir ou ficar?
Contemplar ou não
Este amor dolente
No coração?

***

Qualquer dia desses
ao acordar melancólico
faço as malas,
apanho meu livro de cabeceira e vou por aí...



TRESNOITADO ORFEU

Eclipsastes meu pensamento com o pensar em ti!...
E agora assim é que vivo: tresnoitado Orfeu
Olhando o nada em volta de si...
Buscando no rosto um sorriso teu.

Rio como se estivesses comigo a sorrir...
A deixar teus olhos morrerem nos meus
Pra renascer no coração deste poeta...
Que nada espera senão, um riso teu.

Ando pela casa como se pela vida
Ensaiando passos a viver contigo...
Rio outro riso a correr ao mar;
Este mar em ti onde mergulho sem medo...

Busco em teu ser o aconchego ao meu...
O ombro a pousar meu pranto triste...
Quero-te... E quero bem mais que
A amiga sempre um sorriso em riste...

Mas este bardo, este poeta errante
Não compreende teu olhar amigo...
Talvez uma esperança contemple
No teu rosto lindo que se faz amante...



VELHO ESBOÇO

Sem mais melancolias deixo o olhar firme
Em outras faces... A busca de outros olhos
Que me dê a enxergar novos passos... – uma nova alegria –

E vou eu, incansável moço – de óculos novos –
Sem o velho esboço
Apenas um sorriso vago no rosto...

Todo moço leva em si algo de Byron!...
Levo eu a poesia... Os versos tortos
Amores naufragados... Noites vans...

Nem vou feliz nem triste vou...
Apena no vôo que possuo as águias
Sem mais liberdade que esta liberdade.

Sigo minha curta mocidade
Com a certeza de que logo à frente
Encontro me comigo
Ao espelho do tempo
Em recordações...



NÃO TE CULPO

Não te culpo por minhas lágrimas...
Pois não há crime... Não há pena
No teu jeito tão real de ser... – fora de cinema –

És linda! Uma mulher de assaltar
Qualquer coração solitário...
Fizestes ao meu... Mas não te culpo.

Sou culpado por minha dor
Eu que me deixei libertário
A ponta do punhal que em meu peito crava... – sem misericórdia –

Agora soluço, gemo e choro...
Por este outro amor errante
Que se faz canção fúnebre n’alma...

Choros convulsivos... constantes
Febre no corpo mal dormido
Calafrios da morte... Será o fim do poeta?...

Não te culpo, nem posso culpar-te
Por minha melancolia diária...
Sou o criminoso que me atiras contra o próprio peito...

O culpado absoluto por meu estado enfermo
O verme que em minha carne penetra
O arqueiro suicida que se atira às próprias flechas...

Sou eu o prisioneiro do meu próprio ego
O sego que se faz vidente – o verdadeiro sego –
Aquele que ignora a realidade vendo-a explicitamente...

Não te culpo, mas culpo-me conscientemente...



PRA SEMPRE

Quero-te pra sempre!... Pra toda vida...
Ser de ti mais que o amigo próximo
O eterno namorado... O fiel amante...
Aquele devotado que te ama tanto.

Dou-te meu braço... Se quiseres entrelace
Teus longos dedos aos meus tão curtos
E vamos por ai... Neste compasso
Em direção ao mar infinito... – juntos –

Seremos como nós mesmos...
Mais que bons amigos... – amantes –
Homem e mulher... Unidos
Num elo inseparável... – cativante –

Enquanto esta vida perdura viveremos
Dentro de um poema real
Sem fantasias, utopias, faz-de-conta...
Fora do cinema... – nada teatral –

Outros amores hão de querer viver
Um amor tão grande... Sublime!
Qual este amor nosso: sem crime
As grades e mordaças do sacrifício...

Única escravidão: amor incondicional!
Este amor que liberta o próprio ego
Na compreensão do Eu central
Que prendem as almas num estranho elo.



COLIBRI APAIXONADO

Perdoa-me, querida alma, perdoa-me...
Dei águias ao colibri do meu peito – por isso sofro –
Este pássaro dourado... – errante moço –
Que nada sabe de mar que o mar de si.

Perdoa-me... Perdoa este Ahasverus!
Pobre infeliz que negaste exílio
Ao mais sublime mestre... Pousar a cruz
Sobre os lajedos miseráveis de sua porta...

Este condenado viajante a viver assim:
Peregrinamente... Sem direito sequer
Ao descanso eterno na mais negra alcova
Que acolhe os mortos as trevas eternas...

Sinto no peito um fremir ardente... Quem é?
A louca Ofélia que ergueu da tumba?
A alma de Orfeu em busca de Eurídice?...
Quem é?... Que pretendes anjo da morte?...

É como estilete que perfura a carne... – este fremir... –
E faz dolorida a alma inquieta...
Ai, dor... Porque não consolas em vez de
Corroer impiedosamente este coração poeta?...

Perdoa-me, querida... Perdoa os versos
Deste melancólico moço que
Não sabe conter no peito este colibri
Pássaro apaixonado perdido no universo!...



SINTO MEDO

Minhas pernas sinto-as paralisar na lembrança...
(desde ontem à noite estou assim)

Sinto medo como jamais senti...
Estranho medo que me rouba o ar.

Era previsto... Eu sabia: qualquer dia
A realidade viria bater em minha face...

O moço triste agora desfalece – vagamente –
Junto ao amargo pôr do sol
Contando meses, dias, horas...

Sinto-me como jamais senti... – medo –
Medo que me rouba a fala,
Sufoca a alma,
Paralisa...



TALVEZ

Partir, talvez, seja o remédio...
Fugir dos olhos como das chamas
Tentar ser feliz noutras camas
Na fuga inutilmente do tédio...

Melhor assim, talvez... Quem sabe
Um novo olhar seja realmente
Uma nova vida... Tão diferente
De este olhar que só me traz dor...

Partir... Mesmo com lágrimas... Infeliz!
Pior contemplar dois olhos inflexíveis
Fingidos não vê que sofro tanto
Que cada dia sou menos feliz...

Calar, talvez, seja melhor...
Ficar assim, comigo, a sós
A contemplar os sóis
Que se põem tão amargos...

Nenhum verso, talvez
Mova as pedras que a rodeia...
Talvez não ame, talvez odeia
Este moço que a ama incondicionalmente...



MULHER DE DUAS FACES

Olhar solitário ao horizonte nevado...
Vazio neutral!...
Tudo é questão de tempo... – e o tempo passa –
Envelhecemos os corpos... – a alma sempre a mesma –

Eu sempre à tanger os dias com o pensamento...
Saudade de algo, abandono de tudo.

Se tu pretendes ainda magoar-me, que faça agora
Se esta a imagem que queres que te lembre...

Os dias de sofrimento acabam...
Já vejo o sol do novo amanhã!...
Não terei mais lágrimas – na face um riso.

Não haverá mais eu solitário
Aterrorizado por um amor que só dói...
Serei de mim o grande herói.

Com tua ridícula maneira crava-me no peito
A lança que me cala a alma nua...
Sangra-me com desprezo porque sabes que te amo...

Tu és apenas ego, assim vejo
Mulher de duas faces:
Meiga, serena; leviana, atroz!

Se não me amas porque me feres então?
Porque tanto horror me traz ao peito?
Tanto sofrer a alma poeta?...

Tu, epicurista, vives ao prazer.
Eu, mero poeta, vivo por viver.



ESQUECER-TE

Tenho de esquecer-te... É preciso
Lembrar-te num olhar amigo
Sem outro desejo que
Seja feliz mesmo sem mim...

Tenho de esquecer-te... Embora
Não ter-te comigo
De mãos dadas
Tentar ser feliz sem ti...

Tenho de esquecer-te... E esquecer
Que foste a Musa
Dos suspiros poéticos
Deste peito moço...

Tenho de esquecer-te... E tenho
De lembrar-te sem sofrer,
Sem amargura,
Dor pungente...

Tenho de esquecer-te... E esquecer
A mulher que me roubaste as noites
Que despertastes meu instinto
Que além de ser mulher é também

A alma que me faz bem...

Tenho de esquecer-te... E tenho mesmo – mesmo.



LEVIANA

Alguém te olhou com olhos de desejos
E tu cobriste a pele qual Madalena...

Alguém te fez ver que a vida é feia
Trocou teu nome, pintou teu rosto de cores fortes...

Alguém chamou por ti quando ias...
E tu fingiste não ouvir, pois estavas leviana...

Alguém veio a ti falando simples...
Mas tu, com teu senso infernal, egoísta!
Quisestes palavras desprezíveis...

Alguém te deu a mão quando choravas,
Secou teu pranto, beijo teu rosto...
E tu te afastaste...
Preferindo a vida feia que a vida bela!



QUEM DERA

Não mais versejei um verso...
Falta-me o essencial – a inspiração –
Quem dera fizesse uma canção
Que desdobrasse o velho mundo...
E as vítimas não seriam algozes
Milhões de nozes enfeitariam as ruas...

Quem dera aquela poetisa amada
Erguesse-se da tumba que a inventou
E apanhando do lápis escrevesse:
“Ainda sou poeta neste mundo torto”

Quem me dará abrigo esta noite
E contará no meu ouvido algo novo
Dizendo-me que o mundo não é o que penso
Que é possível viver em meio ao tormento
Uma vida breve, mas bem vivida...

Quem me dera fosse ao jardim no domingo
Trazer-te uma flor e te postar na fronte
Dizendo-te estes versos que aprendi no livro:

“Ó flor! – tu és a virgem das campinas!
Virgem! Tu és a flor da minha vida!...



 “VIVI, AMEI, BEBI E MORRI”

Morro... Este germe no peito consome
O coração humano... Sempre poeta!
Devotado a amores impossíveis...
Embrenhado a ideais sublimes!...

Meus olhos um vazio incompreensível
Sem devoção que o amor presente
E que na ausência se senti... infeliz!

Morro... Abstratamente morro
Como um desenho pintado numa nuvem...
Como as folhas tangidas pelo vento...

Assim meu pensamento se esvaece
Junto a minha mocidade,
As espumas que flutuam nos oceanos...

Morro... Sem que tenha o consolo
De um cálice de vinho sequer
No lábio da mulher que amo... tanto.

Sem que suas tranças prendam-me
Num abraço insano entre duas almas...
Sem o perfume de seus seios quentes
Seu corpo nu misturado ao meu...

Um dia eu, qual Byron, direi:
“Vivi, amei, bebi e morri...”



PARTIR

Quero partir!... Nada mais me impede
Nada me prende a este porto inseguro...

Quero partir!... Meu olhar ao longe
Desenha um caminho na linha do horizonte...

Partir num vôo de condor!... Livre
Sobre os Andes que vão ficando, petrificados...

Saudades... Lembranças... Meu Deus!
Que senti aquela moça que tanto amei?...

Que coração bate em seu peito quente?
Por que friamente me foge o olhar?...

Uma parte de mim parte comigo...
Outra parte fica – com ela – à morrer...



DEIXO-TE

Não devo amar-te da maneira que te amo
Assim faço do meu amor desprezível...
Tu me aparentas insensível... leviana
Inflexível a minha dor horrível...

Eu sou só um menino contemplando-te
Na tua rude maneira de ser...
Tu és mais ego que propriamente ti!...
Andas a mercê do tempo...

Não posso negar tua existência
És parte do meu passado recente
Se negar-te serei como ti mesma
Alguém que só vive o instante...

Moras-te nalgum gesto meu...
Talvez no olhar; talvez...
Foste mais mocinha que vilã
Talvez explique porque ainda te amo...

E amando-te deixo-te na vida
Que queres viver:
Com ou sem mim.



“EU DEIXO A VIDA COMO QUEM DEIXA O TÉDIO”
(Álvares de Azevedo)

Já não quero mais escrever melancolias
Não quero chorar lágrimas no desatino
Estes meus olhos – tristes – de menino
Querem mergulhar numa nova poesia...

Não vale a pena tanto suplício
Sonhos náufragos... noites desertadas
Sobre o leito pensando no exílio
De um seio quente da mulher desejada...

Eu faço versos como quem faz rabiscos
Eu canto a sorte como quem foge à morte
Eu e meu complexo de me achar ridículo...

Mas se o meu querer é apenas “querer”
“eu deixo a vida como quem deixa o tédio”



RECEOSO

Sinto receio, e não medo...
Receio que sintam medo
Não do poeta,
Mas do homem que o sou...

Cativo o coração no peito, pois
A razão o denuncia
E posso perder a causa no tribuno...

Não tenho medo de amar – amo –
Mas que meu amor seja rejeitado
Motivo de medo, de assombro. Sei lá...

Receio um amor novo receoso
De que este amor venha a sentir medo
De minha verdadeira maneira de amar...

Se bem que um novo amor torna-se eclipse
À velhos amores idos!...
Amores que não podem ser
E que se tornam compreendidos...

Mas, a vida é breve! Todos sabem.
Não raro, ouço a quase toda esquina...
Olhar para traz é recordar, tão só...
E recordar é contemplar o passado...

Então, a realidade é algo simples – tão bela –
Como os breves dias das flores...
Amanhã posso não mais olhá-las
Com o mesmo encanto que as olho hoje...

Sinto receio, mas não medo
Aos poucos me encontro o caminho...
E quando a fonte chegar ouvirei da roldana
A mais linda canção do deserto...